Dedicada a proporcionar uma boa noite de sono, a Zissou já faturou mais de R$ 1 milhão – em menos de um ano de operação – com estratégias de produção e distribuição inovadoras para vender colchões

 

Colchão Zissou na Revista GolEm uma viagem aos Estados Unidos em 2015, o administrador paulistano Ilan Vasserman, 32 anos, se deparou com um produto curioso, que fazia sucesso entre os jovens americanos: uma caixa compacta, que cabia dentro de um elevador, e levava dentro um colchão. A tecnologia, que tirava de cena a necessidade de caminhões, carregadores e outras preocupações logísticas, chamou a sua atenção e despertou sua veia empreendedora.

 

Na época, trabalhando madrugada adentro no mercado financeiro, Ilan sabia o valor de uma boa noite de sono e decidiu procurar a fabricante americana Casper para comercializar o produto no Brasil, mas a startup recusou sua ideia. A empresa, no entanto, deu o aval para que ele criasse seu próprio colchão no modelo bed in a box, ainda inédito por aqui. Para a empreitada, Ilan convidou o também administrador e amigo de infância Amit Eisler, 32, e o engenheiro Andreas Burmeister, 40, na época colega de trabalho de Amit na Xiaomi, gigante chinesa de tecnologia. “Trabalhávamos no fuso horário chinês e víamos como uma noite de sono ruim impactava na qualidade de vida das pessoas, por isso decidimos encarar esse desafio”, lembra Andreas. Assim nasceu, em junho de 2017, a Zissou, empresa que já faturou mais de R$ 1 milhão com a venda de colchões em menos de um ano de operação.

 

Em busca de mais qualidade de vida e autonomia, o trio deixou as carreiras estáveis para explorar esse mercado no Brasil. Antes do lançamento, estudaram a relação do brasileiro com o sono durante um ano e descobriram, entre outras coisas, que uma das necessidades dos consumidores era que o colchão não esquentasse com o calor do corpo. Para desenvolver o produto ideal, contaram com a consultoria do designer de produto Felipe Bettoni, integrante da quarta geração da família responsável por administrar a tradicional Colchoaria Bettoni, que desde 1937 cria colchões personalizados.

 

O resultado para atender a essa demanda foi escolher o látex hipoalergênico – material que ajuda a dissipar o calor e manter o colchão fresco a noite toda – como uma das três camadas da estrutura, formada também por poliuretano e viscoelástico. “Conforto é um valor pessoal, mas queríamos desenvolver um colchão mais firme, outra preferência dos brasileiros. Também tínhamos a preocupação de compactar o produto sem interferir na qualidade quando ele fosse aberto”, conta Bettoni.

 

Com apenas dois funcionários além dos sócios, a produção é toda feita nos Estados Unidos, onde uma prensa de 60 toneladas comprime os colchões para que, do tamanho solteiro (R$ 2.990) ou king (R$ 5.690), eles caibam dentro de uma caixa de 1, 15 metro de altura por 40 centímetros de largura.

 

BERÇO ESPLÊNDIDO

 

Time Zissou na Revista Gol

 

Para colocar de pé um negócio que envolve novas tecnologias e importação, a Zissou contou com um investimento inicial de R$ 3 milhões, sendo dois deles vindos de investidores e 1 milhão dos próprios sócios. O número, que pode surpreender, faz sentido para esse mercado, já que a indústria de colchões está sempre em busca de novas soluções. “Uma marca nova no mercado, com um produto de custo elevado, consegue competir com as concorrentes quando cria algo inovador”, explica Marcelo Prado, diretor do IEMI Inteligência de Mercado, instituto que estuda o comportamento de compra dos brasileiros. Além disso, uma pesquisa da mesma instituição estima que o segmento cresceu 6,9% no Brasil entre 2016 e 2017.

 

 

Não é de se estranhar, já que mais da metade da população brasileira sofre de algum distúrbio que afeta a qualidade do sono. O dado é apontado por Shigueo Yonekura, neurologista do Instituto de Medicina do Sono, em São Paulo. “Todas as áreas da medicina estão dando atenção ao tema, que influencia até em doenças mais graves. Nos últimos três anos, as pessoas têm procurado mais ajuda, pois estão percebendo que o estresse do cotidiano e as condições do sono afetam diretamente suas vidas. Temperatura do ambiente e altura do travesseiro, por exemplo, são fatores importantes e determinantes nesse processo”, afirma Yonekura.

 

Colabora para o sucesso da Zissou a solução criada pelos sócios para acabar com aquele momento constrangedor na hora de comprar um colchão que acontece na maioria das lojas, com os vendedores assistindo à cena. Quem quer experimentar o produto pode ir até a Casa Zissou, em São Paulo, e testar a peça em um quarto privado e aconchegante, com iluminação e trilha sonora escolhidas pelo visitante. “É um cômodo pensado e criado para o cliente se sentir em casa”, explica Amit. “Os consumidores estão cada vez mais exigentes, então as marcas têm que criar um novo jeito de vender para captar essa fatia do mercado”, completa Marcelo Prado.

 

As vendas são feitas lá ou pelo site, com entrega para todo o Brasil e devolução do valor pago até cem dias depois da compra, caso o comprador não se adapte ao produto. O destino do colchão antigo também é uma preocupação da marca, que faz a ponte com a ONG Exército da Salvação para a retirada do item. “Doar o colchão velho é um jeito que encontramos para facilitar a vida do cliente e causar impacto positivo na sociedade. Todo mundo sai contente com essa ação”, conta Amit.

 

OLHOS ABERTOS

 

Os diferenciais da Zissou também chamaram a atenção de clientes além do consumidor final – o segmento corporativo já representa 20% das vendas. A marca foi escolhida para equipar os 60 apartamentos do Fasano Angra dos Reis, inaugurado em dezembro. “Testamos uma amostra e gostamos da tecnologia. Os colchões certamente têm agradado os hóspedes”, revela Gabrielle Espíndola, gerente-geral do hotel. Destacar-se no ramo da hotelaria não foi um simples acaso: as especificidades do produto foram pensadas desde o início para ganhar esse mercado. “A capa removível que criamos é uma delas, porque favorece na limpeza do colchão. O tamanho também tinha que se adequar ao dos lençóis, além de o peso ser menor do que o habitual para facilitar o trabalho das camareiras”, explica Felipe Bettoni. Além do Fasano, a marca também conquistou a concorrência da linha de hotelaria da Trussardi e das lojas de móveis Ornare e Breton.

 

A ascensão de seus colchões no mercado, no entanto, não é suficiente para que os empreendedores da Zissou considerem a empresa consolidada. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Colchões (Abicol) mostram que o brasileiro só substitui o colchão a cada cinco anos. Ou seja: a preocupação em aumentar a oferta de produtos é uma estratégia para manter o negócio em alta. Enquanto os clientes dormem tranquilos, o trio planeja a criação de novos produtos, como um travesseiro com altura, temperatura e maciez ideais para agradar a todos os gostos, também desenvolvido por Bettoni. Para continuar inovando, eles devem receber mais R$ 5 milhões de investidores ainda este ano – a estimativa é que o valor total, contando os R$ 3 milhões iniciais, retorne em até seis anos. “Queremos nos consolidar como a marca que representa o sono para os brasileiros”, afirma Amit.

 

Para conferir a matéria original, clique aqui: O sono dos justos